
Cartório das Almas
Lauta, de 126 anos, é incumbida de protocolar os motivos dos que renunciam à eternidade.

E se viver para sempre deixasse de ser um sonho dourado e virasse a burocracia mais fria da sua rotina? É exatamente por essa fresta que Cartório das Almas nos puxa para dentro de um futuro onde a morte passou a ser uma escolha rigorosamente regulada por balcões e formulários. Com pouco mais de uma hora de projeção, a direção do Leo Bello aposta em um cinema de atmosfera e observação pura, dispensando explicações mastigadas e optando por um tom contemplativo que exige um pouco de paciência do espectador. E essa escolha estética encontra seu maior trunfo no cenário: Brasília. A arquitetura e a frieza institucional da capital federal caem como uma luva para construir essa distopia impessoal, transformando os espaços físicos em uma extensão do vazio existencial dos personagens. A fotografia abraça essa identidade visual com um capricho evidente, deixando que os ambientes e a relação silenciosa com o cenário falem muito mais do que qualquer diálogo expositivo.

No centro desse labirinto burocrático está a Laura da Gabriela Correa, que entrega uma atuação extremamente sensível e ancorada na contenção. Com 126 anos nas costas e trancada em um contrato que a proíbe de opinar sobre as decisões alheias, ela carrega nos olhos a transformação gradual de quem escuta o peso do fim todos os dias. É o trabalho dela que sustenta o interesse dramático do longa de ponta a ponta, dando alma e humanidade a um universo propositalmente clínico.
Ainda assim, nem todas as escolhas narrativas conseguem pousar com a mesma força. O roteiro derrapa um pouco na irregularidade e perde fôlego quando algumas subtramas secundárias ficam pelo caminho sem o devido desenvolvimento, o que pode dar a sensação de que a história patina em momentos onde precisava avançar com mais firmeza.

Apesar desses tropeços de ritmo, o filme ganha pontos preciosos por ter a coragem de debater a autonomia, a finitude e o direito de escolha sem cair em moralismos fáceis ou respostas prontas. É uma ficção científica brasileira que ousa olhar para o lado mais humano da eternidade e usar um cenário futurista para cutucar certezas do nosso próprio presente. Para quem curte uma produção mais reflexiva, cadenciada e esteticamente fora do comum, é uma experiência que instiga a mente. No fim das contas, uma obra imperfeita, mas cheia de personalidade e inteligência.
Gêneros: Fantasia

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